Era uma dessas tardes de verão que o sol demora pra se pôr e aquela brisa leve vem avisar que a lua já está a chegar, onde o mar parecia uma pintura de tanto que nem se mexia. Lá estava ela sentada na areia com seu maiô florido a esconder seu corpo, a observar tudo. Com seus óculos fundo de garrafa que tanto pesavam em seu nariz, com os cabelos ruivos que a brisa já tinha bagunçado. Sozinha, como sempre fora. Estava esperando o sol beijar o mar para então, ir pra casa onde só tinha um gato gordo a lhe esperar.
Foi quando viu da água sair aqueles corpos alaranjados pelo sol. Uma loira com um biquíni que quase se escondia, até sua sombra na areia era escultural. Um moreno de uns dois metros de altura, tão forte que atraía olhares até de outros homens. E estavam lá os dois na sua frente, se beijando como se não houvesse amanhã. Por um momento o moreno deslumbrante até girou a loira no ar. De onde ela estava sentada, dava pra ouvir as palavras de amor eterno que os dois se juravam.
A gordinha ruiva pensou: "Como são felizes! E eu o que tenho para ser feliz? Sem esses óculos nem enxergar, enxergo! Quando a noite chegar em casa, só terei o meu gato dormindo longe de mim!". E toda aquela espera angustiante para ver o beijo do sol e do mar parece que acabara naquele instante. Ela se enrolou na canga para esconder suas imperfeições antes que algum olhar curioso pudesse repará-la.
Foi então, no segundo que se levantava, já na sua desistência de ver qualquer pôr do sol, já aceitando sua solidão olhou novamente para o casal perfeito. O tal moreno foi dar seu último mergulho como se fugisse da sua obrigação de todos os dias e a loira virou tão rápido que nem o admirou entrar no mar, e sua expressão era de alívio por ficar longe dele. Ele, vendo que estava livre do olhar da sua loira, pode reparar na morena que estava entrando no mar também. E dali ela ainda conseguiu ouvir a loira resmungando: "tomara que mergulhe e não volte!".
A ruivinha, naqueles segundos, se perguntou: "Cadê a felicidade do casal perfeito? Eles são perfeitos, devem ser felizes!". Afirmou ela na tentativa de compreender aquela situação. Mas a única coisa que ela conseguiu perceber, é que ela era muito mais feliz que eles, e respirou aliviada. Se sentiu culpada por duvidar da sua felicidade. Retirou a canga que escondia seu corpo, mexeu os óculos no rosto para ter a visão ajeitada, passou a mão em seus cabelos bagunçados e deitou.
Deu mais uma olhada para o casal, a loira estava falando no telefone com uma amiga sobre como o novo diretor da empresa era lindo, e o o moreno, ainda no mar, estava ajudando a tal morena a nadar...e nenhum dos dois reparavam no sol.
Nesse momento o sol começava a encostar no mar e ela lembrou do seu gato e afirmou: "É, eu sou feliz!"


